O Grande Sono
(do original em inglês de Philip Schultz, publicado na New Yorker)
"A única coisa que nos consola por nossas misérias é a diversão, e também
esta é a maior de nossas misérias."
Nos filmes clássicos de Turner, Philip Marlowe está fazendo careta
para a provocante beleza da mulher que se tornará a esposa
do ator atuando ele mesmo.
O homem fazendo meu papel até às três desta manhã,
preocupado com o custo da escola primária,
Seguro médico, e a vagarosa trituração de sua poupança, está vestindo
descorado modelo por causa de um gráfico de mancha
listava seu sorriso como segundo ao pior.
Na CNN estranhos dioramas de Bagdá,
do Sudão, e Gaza representavam formas recentes
da miséria humana. Há algum gráfico que meça nossa ignorância e vaidade?
Na PBS filósofos estão debatendo o que
Nietzche quis dizer por nosso desejo de criar
além de nós mesmos a mais pura vontade.
O fogo sexual nos olhos de âmbar de Lauren Bacall esteja atuando, talvez?
Na Western Channel a brancura dos dentes de Joel McCrae
sobreviveu a tempestades de poeira, mascando tabaco,
e sua nostalgia de temperamento para a brutalidade
de seu pequenino momento. Alguns acreditam que consumimos nossa originalidade,
que nosso diorama não representará nada.
Na Disney Channel todos os cinquenta e seis assinantes da Declaração
da Independência estão gritando sobre a indignidade da dominação
para todos exceto talvez aqueles que atendem a seus campos e crianças?
o homem atuando como Nietzche tornou-se enfadado em tentar tornar
a felicidade em pura vontade?
Chapéu sobre chapéu, o homem atuando como meu pai ficou perpendicular
à exaustão,
não-estudado, sombra de imigrante, lamentando nosso hino nacional. Um
homem resiste por alguma coisa, ele disse. O ator que faz o papel de Marlowe
compreende que Marlowe resiste por nada?
No History Channel homens e bestas estão sendo abatidos por facões, explosões
e enforcamentos, seus inchados, mistificados corpos
caindo nas ravinas, dobrando seus joelhos gritando por suas mães e Deus
para salvá-los.
São três da manhã e em todo lugar
em minha volta o silêncio resiste por nada
e mesmo o deus atuando como Deus
quer dormir.
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
sábado, 21 de janeiro de 2012
O Circo de um Homem Só, Charles Simic
O Circo de um Homem Só
(de Charles Simic, publicado pela New Yorker)
Ilusionista de chapéus e granadas de mão acesas.
Acrobata, contorcionista, apresentador,
Estátua viva, andador na corda, artista da evasão,
Ventriloquista amador e leitor da mente,
Fazendo isso tudo sem ser detectado
Enquanto vagarosamente andando à toa na rua,
Comprando um jornal em alguma esquina,
Inclinando-se para passar a mão no cachorro de um cego,
Ou sentando-se no outro lado de sua mulher ao jantar,
Enquanto ela tagarela sobre o tempo,
Concentrando, em vez disso, num trapézio em sua cabeça,
Os tigres andando compassados raivosamente em sua jaula.
(de Charles Simic, publicado pela New Yorker)
Ilusionista de chapéus e granadas de mão acesas.
Acrobata, contorcionista, apresentador,
Estátua viva, andador na corda, artista da evasão,
Ventriloquista amador e leitor da mente,
Fazendo isso tudo sem ser detectado
Enquanto vagarosamente andando à toa na rua,
Comprando um jornal em alguma esquina,
Inclinando-se para passar a mão no cachorro de um cego,
Ou sentando-se no outro lado de sua mulher ao jantar,
Enquanto ela tagarela sobre o tempo,
Concentrando, em vez disso, num trapézio em sua cabeça,
Os tigres andando compassados raivosamente em sua jaula.
Marcadores:
Charles Simic,
New Yorker,
Tradução,
Transcriação
Pastoral Roanoke, David Huddle
Pastoral Roanoke
(poema de David Huddle, publicado na revista New Yorker)
Cardeal, pintassilgo, chopim, bútio de peru -
queridas companhias das minhas tardes -
acima deste morro, altas núvens sonham com nevascas
para nevar-me até que a primavera termine minha solidão.
Controlada é a minha farra agora, a natureza é o meu bar.
Carriça, pomba do luto, espião da casa, bútio de peru -
para seu entretenimento, eu canto as palavras
de canções anos 50, use a fala de bebê, sussurre
enquanto eu caminho no campo abaixo da grande nevasca -
núvens sonhadoras. Você, grande festa, bibelôs, doces pássaros
dos meus anos sêniors - meu logo do mais tarde
tordos adejam pelos cedros no cemitério
bútios de peru giram seus contornos aéreos,
através da luz do sol do lado da montanha reverencia um tom
subindo para a eternidade azul mas ouvido
pela garça pescando o riacho mágico do silêncio,
criatura desenhada pela lua.
Azulão, gaio, pardal lascando-se, bútio de peru,
núvens, e campo - eu sonho com esta vida, caminho neste mundo.
(poema de David Huddle, publicado na revista New Yorker)
Cardeal, pintassilgo, chopim, bútio de peru -
queridas companhias das minhas tardes -
acima deste morro, altas núvens sonham com nevascas
para nevar-me até que a primavera termine minha solidão.
Controlada é a minha farra agora, a natureza é o meu bar.
Carriça, pomba do luto, espião da casa, bútio de peru -
para seu entretenimento, eu canto as palavras
de canções anos 50, use a fala de bebê, sussurre
enquanto eu caminho no campo abaixo da grande nevasca -
núvens sonhadoras. Você, grande festa, bibelôs, doces pássaros
dos meus anos sêniors - meu logo do mais tarde
tordos adejam pelos cedros no cemitério
bútios de peru giram seus contornos aéreos,
através da luz do sol do lado da montanha reverencia um tom
subindo para a eternidade azul mas ouvido
pela garça pescando o riacho mágico do silêncio,
criatura desenhada pela lua.
Azulão, gaio, pardal lascando-se, bútio de peru,
núvens, e campo - eu sonho com esta vida, caminho neste mundo.
Marcadores:
David Huddle,
New Yorker,
Tradução,
Transcriação
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Roland Barthes e sua mãe: Notas sobre o Luto.
(Artigo de Judith Thurman, publicada na revista New Yorker.
Traduzido para o português, via inglês, as notas em francês.)
Roland Barthes foi atropelado por uma van de lavanderia, assim que pisou fora de uma calçada de Paris, em 25 de fevereiro de 1980. Ele morreu um mês mais tarde
desses ferimentos - uma morte imbecil, poderia ter dito Camus. Ele tinha sessenta e quatro anos, e foi pranteado com algo da mesma intensidade com que ele pranteia sua mãe, nestes excertos. Eles foram tirados de notas que ele começou a manter a partir do dia da morte dela, aos oitenta e quatro anos, em outubro de 1977, e foram publicadas em francês pela primeira vez no ano passado.
Aqueles que amam Barthes são lembrados, por seus escritos, da verdadeira intimidade que vincula: suprema sintonia alternada com espantoso estranhamento. Instabilidade - a instabilidade de significado, em particular - é seu constante tema. O fragmento era, enfim, a forma mais congenial a ele. Barthes foi um teórico literário e um semioticista por profissão. Mas ele era também um homem de letras no mais amplo sentido, bem como certamente o maior estilista de prosa e o maior leitor apaixonado do pós-guerra da França. Não importa qual assun to - moral, estético, linguístico, de gênero, identidade ou desejo - sua escrita é sempre uma meditação sobre a vida e a morte. " O homem que sofre e o homem que cria", conforme T.S. Eliot, desconfiava um do outro. Nestes excertos a tristeza dá a Barthes a permissão para que não pudesse nunca desistir de si mesmo: deixar ir.
26 de outubro, 1977.
Primeira noite de casamento, mas primeira noite de luto?
27 de outubro
Todas as manhãs, por volta das seis e meia, escuro do lado de fora, a metálica raquete das latas de lixo. Ela poderia dizer com alívio: a noite finalmente acabou (ela sofria durante a noite, sozinha, uma coisa cruel).
_____________________________
Assim que alguém morre, arrebatada construção do futuro (trocar a mobília, etc): futuromania.
____________________________
_ S.S.: Tomarei conta de você, prescreverei algum tranquilizante.
_ R.H.: Você tem estado deprimido por seis meses, porque você sabia. Perda, depressão, trabalho, etc, mas disse discretamente, como sempre.
Irritação. Não, perda (depressão) é diferente de doença. Do que deveria ser curado? Para encontrar qual condição, que vida? Se alguém está para ser nascido, essa pessoa não está em branco, mas é um ser moral, um tema de valor - não de integração.
_____________________________--
Todo mundo adivinha - eu sinto isso - o grau de intensidade da perda. Mas é impossível (sem sentido, signos contraditórios) medir o quanto alguém está aflito.
___________________________--
_ "Nunca mais, nunca mais!"
_ E mesmo assim,
há uma contradição: "nunca mais" é a expressão de um imortal.
___________________________--
Reunião abarrotada. Inevitável, crescente futilidade. Eu penso nela, no quarto ao lado. Tudo colapsa. É, aqui, o começo formal da grande, longa perda.
Pela primeira vez em dois dias, a noção aceitável, da minha própria morte.
____________________________--
28 de outubro
Trazendo o corpo de mamãe de Paris para Urt (com J.L. e o empresário dos serviços funerários): parando para o almoço numa pequena espelunca para caminhoneiros, em Sorigny (depois de Tours). O empresário encontra um "colega" lá (levando um corpo para Haute-Vienne) e se reúne com ele para o almoço. Eu caminho alguns passos com Jean-Louis num dos lados da quadra (com seu horrível monumento aos mortos), chão de terra, o cheiro da chuva, do mato. E ainda algo com sabor de vida (por causa do doce aroma da chuva), a primeira descarga, como uma palpitação momentânea.
______________________________--
29 de outubro
Que estranho: "Ela não está mais sofrendo", o quê, para quem este "ela" refere? O que significa este tempo de verbo?
________________________________
Uma assombrosa mas não angustiada noção - que ela não tem sido "tudo" para mim. Se tivesse, eu não teria escrito meu trabalho. Desde que tenho cuidado dela, os últimos seis meses de fato, ela era "tudo" para mim, e eu me esqueci completamente que eu tinha escrito. Eu não mais era nada senão desesperadamente dela. Antes, ela se fazia transparente para que eu pudesse escrever.
__________________________________
Os desejos que eu tivera antes de sua morte (enquanto ela estava doente) não podem mais ser preenchidos, pois o que significaria isso é sua morte que me permite preenchê-los - sua morte poderia ser uma liberação em algum sentido em relação aos meus desejos. Mas sua morte me mudou, eu não mais desejo o que costumava desejar. Devo esperar - supondo que tal coisa poderia acontecer - para que que um novo desejo se forme, um desejo seguinte de sua morte.
31 de outubro
Não quero falar sobre isso, por medo de fazer disso literatura - ou sem estar seguro de não fazer isso - embora por uma questão de fato literatura se origina
dentro dessas verdades.
___________________________________
Segunda-feira, 3h da tarde
De volta pela primeira vez no apartamento. Como vou lidar com viver aqui totalmente sozinho? E ao mesmo tempo, está claro que não há outro lugar.
________________________________
Algumas vezes, muito brevemente, um momento branco - uma espécie de torpor - que não é um momento de esquecimento. Isso me aterroriza.
_________________________________
Uma estranha nova acuidade, vendo (na rua) a feiúra das pessoas ou sua beleza.
3 de novembro
Por um lado, ela quer tudo, luto total, seu absoluto (mas então, não é ela, sou eu que a estou investindo com a demanda para tal coisa). Por outro lado (sendo verdadeiramente ela mesma), ela me oferece luminosidade, vida, como se ela ainda estivesse dizendo: "Mas vá em frente, saia, divirta-se..."
4 de novembro
A idéia, a sensação que tive nesta manhã, da oferta de luminosidade no luto, Eric me conta hoje que acabou de de reler isto em Proust ( a oferta da avó para o narrador).
_______________________________
Por volta das 6 da tarde o apartamento está aquecido, limpo, bem iluminado, agradável. Eu eu o torno assim, energeticamente, devotadamente (tendo prazer amargamente): de agora em diante e para sempre serei minha própria mãe.
5 de novembro
Tarde triste. Compras. Comprei (frivolidade) bolo para chá na padaria.
Atendendo um freguês à minha frente, a jovem atrás do balcão diz "eis aqui". A expressão que eu usava quando trazia alguma coisa à mamãe, quando estava cuidando dela.Uma vez, encaminhando para o final, meio-consciente, ela repetia, fracamente, "eis aqui"("estou aqui", uma palavra que costumávamos usar um para o outro em todas nossas vidas).
A palavra falada pela jovem na padaria me trouxe lágrimas aos meus olhos. Eu continuei a chorar por um bom tempo de volta ao silencioso apartamento.
Isso é como eu compreendo meu luto. Não diretamente na solidão, empiricamente, etc.;Parece-me que eu tenho uma espécie de conforto, de controle que faz as pessoas pensarem que estou sofrendo menos do que elas teriam imaginado. Mas isso me chega quando nosso amor de um para o outro é rompido mais uma vez.O ponto mais doloroso no mais abstrato momento...
9 de novembro
- Menos e menos para escrever, dizer, exceto isto (que eu não posso contar a ninguém).
10 de novembro
As pessoas lhe falam para manter sua "coragem". Mas o tempo para coragem foi quando ela estava doente, quando eu tomei conta dela e a vi sofrendo, sua tristeza, e quando eu tinha de segurar minhas lágrimas. Constantemente se tinha de tomar decisão, pôr uma máscara, e isso era coragem.
_ Agora, coragem significa que viverá e isso é tudo demais disso.
11 de novembro
Solidão= não ter ninguém em casa para quem se possa dizer, voltarei em tempo específico, ou a quem você possa ligar para dizer (ou a quem você possa simplesmente dizer), "eis aqui", estou em casa agora.
16 de novembro
Agora, em todo lugar, na rua, no café, eu vejo cada indivíduo sob o aspecto de inelutavelmente ter de morrer, o que é exatamente o que significa ser mortal. _ E, não menos obviamente, eu os vejo não sabendo disso assim.
17 de novembro
Luto: um país cruel onde eu não tenho mais medo.
26 de novembro
O que eu acho aterrador é o caráter descontínuo do luto.
28 de novembro
Para quem eu posso colocar essa pergunta (com alguma esperança de uma resposta)?
Ser capaz de viver sem alguém que você amava significa que você a amou menos que você pensava...?
30 de novembro
Não diga "luto". É psicanalítico demais. Não estou de luto. Eu estou sofrendo.
7 de dezembro
As palavras (simples) da Morte:
_ "É impossível!"
_ Por quê, por quê?"
_ "Para sempre"
etc.
8 de dezembro
Luto: não uma esmagadora opressão, uma interferência (que suporia um "reenchimento") mas uma disponibilidade dolorosa: Eu estou vigilante, expectante, esperando o começo de um "sentido da vida".
8 de janeiro, 1978
Todo mundo é "extremamente agradável" - e mesmo assim me sinto completamente sozinho ("Abandonitis")
12 de fevereiro
Neve, uma verdadeira tempestade de neve sobre Paris; estranho. Eu digo a mim mesmo, e sofro por isto: ela nunca mais estará aqui para ver isso, ou para eu descrevê-lo para ela.
18 de fevereiro
Eu tinha pensado que a morte de mamãe me faria alguém mais "forte", ter acesso conforme eu pudesse para a indiferença do mundo. Mas tem sido bem ao contrário: eu estou até mais frágil (sem surpresa: por nenhuma razão, um estado de abandono).
6 de março
Meu sobretudo é tão sombrio que eu sei que mamãe jamais toleraria o cachecol preto ou cinza que eu sempre uso com ele, e eu continuo a ouvir sua voz dizendo-me para usar um pouco de cor.
Pela primeira vez, então, eu decido usar um cachecol colorido (xadrez escocês).
3 de abril
Desespero: a palavra é teatral demais, uma parte da língua.
28 de maio
A verdade sobre o luto é muito simples: agora que mamãe está morta, eu me deparo com a morte (nada me separa mais disso, exceto o tempo).
7 de julho
Mostra de "Os Últimos Anos de Cézanne"
Mamãe: como Cézanne (as últimas aquarelas).
Cézanne é azul.
14 de junho
(Oito meses após): segundo luto.
15 de junho
Tudo começou de novo imediatamente: chegada dos manuscritos, pedidos, histórias das pessoas, cada pessoa impiedosamente pressionando antecipação de sua própria demanda (por amor, por gratidão): não demorou que ela partisse para que o mundo me atordoasse com sua continuidade.
17 de junho
primeiro luto
falsa liberdade
segundo luto
desolada liberdade
mortalmente, sem
valiosa ocupação
18 de julho
Cada um de nós tem seu próprio ritmo de sofrimento.
29 de julho
Biblioteca Nacional
Carta (de Proust) para Georges de Lauris, cuja mãe acabou de morrer (1907)
"Agora há uma coisa que posso falar: você apreciará certos prazeres que você não fantasiaria agora. Quando você ainda tinha sua mãe, frequentemente pensava nos dias quando não mais a teria. Agora você pensará frequente nos dias passados quando a tinha. Quando você se acostumar com essa horrível coisa que eles estarão para sempre na distância do passado, então você gentilmente sentirá seu renascer, voltando para retomar seu lugar, seu completo lugar, ao seu lado. No presente momento, isto não é possível. Deixe-se estar inerte, espere até o incompreensível poder...que te quebrou restaure-o um pouco, eu digo um pouco, pois que daqui por diante você conservará alguma coisa quebrada sobre você. Diga isso a você, também, pois é uma espécie de prazer de que você nunca amará menos, que você nunca será consolado, que você constantemente lembrará mais e mais".
Traduzido para o português, via inglês, as notas em francês.)
Roland Barthes foi atropelado por uma van de lavanderia, assim que pisou fora de uma calçada de Paris, em 25 de fevereiro de 1980. Ele morreu um mês mais tarde
desses ferimentos - uma morte imbecil, poderia ter dito Camus. Ele tinha sessenta e quatro anos, e foi pranteado com algo da mesma intensidade com que ele pranteia sua mãe, nestes excertos. Eles foram tirados de notas que ele começou a manter a partir do dia da morte dela, aos oitenta e quatro anos, em outubro de 1977, e foram publicadas em francês pela primeira vez no ano passado.
Aqueles que amam Barthes são lembrados, por seus escritos, da verdadeira intimidade que vincula: suprema sintonia alternada com espantoso estranhamento. Instabilidade - a instabilidade de significado, em particular - é seu constante tema. O fragmento era, enfim, a forma mais congenial a ele. Barthes foi um teórico literário e um semioticista por profissão. Mas ele era também um homem de letras no mais amplo sentido, bem como certamente o maior estilista de prosa e o maior leitor apaixonado do pós-guerra da França. Não importa qual assun to - moral, estético, linguístico, de gênero, identidade ou desejo - sua escrita é sempre uma meditação sobre a vida e a morte. " O homem que sofre e o homem que cria", conforme T.S. Eliot, desconfiava um do outro. Nestes excertos a tristeza dá a Barthes a permissão para que não pudesse nunca desistir de si mesmo: deixar ir.
26 de outubro, 1977.
Primeira noite de casamento, mas primeira noite de luto?
27 de outubro
Todas as manhãs, por volta das seis e meia, escuro do lado de fora, a metálica raquete das latas de lixo. Ela poderia dizer com alívio: a noite finalmente acabou (ela sofria durante a noite, sozinha, uma coisa cruel).
_____________________________
Assim que alguém morre, arrebatada construção do futuro (trocar a mobília, etc): futuromania.
____________________________
_ S.S.: Tomarei conta de você, prescreverei algum tranquilizante.
_ R.H.: Você tem estado deprimido por seis meses, porque você sabia. Perda, depressão, trabalho, etc, mas disse discretamente, como sempre.
Irritação. Não, perda (depressão) é diferente de doença. Do que deveria ser curado? Para encontrar qual condição, que vida? Se alguém está para ser nascido, essa pessoa não está em branco, mas é um ser moral, um tema de valor - não de integração.
_____________________________--
Todo mundo adivinha - eu sinto isso - o grau de intensidade da perda. Mas é impossível (sem sentido, signos contraditórios) medir o quanto alguém está aflito.
___________________________--
_ "Nunca mais, nunca mais!"
_ E mesmo assim,
há uma contradição: "nunca mais" é a expressão de um imortal.
___________________________--
Reunião abarrotada. Inevitável, crescente futilidade. Eu penso nela, no quarto ao lado. Tudo colapsa. É, aqui, o começo formal da grande, longa perda.
Pela primeira vez em dois dias, a noção aceitável, da minha própria morte.
____________________________--
28 de outubro
Trazendo o corpo de mamãe de Paris para Urt (com J.L. e o empresário dos serviços funerários): parando para o almoço numa pequena espelunca para caminhoneiros, em Sorigny (depois de Tours). O empresário encontra um "colega" lá (levando um corpo para Haute-Vienne) e se reúne com ele para o almoço. Eu caminho alguns passos com Jean-Louis num dos lados da quadra (com seu horrível monumento aos mortos), chão de terra, o cheiro da chuva, do mato. E ainda algo com sabor de vida (por causa do doce aroma da chuva), a primeira descarga, como uma palpitação momentânea.
______________________________--
29 de outubro
Que estranho: "Ela não está mais sofrendo", o quê, para quem este "ela" refere? O que significa este tempo de verbo?
________________________________
Uma assombrosa mas não angustiada noção - que ela não tem sido "tudo" para mim. Se tivesse, eu não teria escrito meu trabalho. Desde que tenho cuidado dela, os últimos seis meses de fato, ela era "tudo" para mim, e eu me esqueci completamente que eu tinha escrito. Eu não mais era nada senão desesperadamente dela. Antes, ela se fazia transparente para que eu pudesse escrever.
__________________________________
Os desejos que eu tivera antes de sua morte (enquanto ela estava doente) não podem mais ser preenchidos, pois o que significaria isso é sua morte que me permite preenchê-los - sua morte poderia ser uma liberação em algum sentido em relação aos meus desejos. Mas sua morte me mudou, eu não mais desejo o que costumava desejar. Devo esperar - supondo que tal coisa poderia acontecer - para que que um novo desejo se forme, um desejo seguinte de sua morte.
31 de outubro
Não quero falar sobre isso, por medo de fazer disso literatura - ou sem estar seguro de não fazer isso - embora por uma questão de fato literatura se origina
dentro dessas verdades.
___________________________________
Segunda-feira, 3h da tarde
De volta pela primeira vez no apartamento. Como vou lidar com viver aqui totalmente sozinho? E ao mesmo tempo, está claro que não há outro lugar.
________________________________
Algumas vezes, muito brevemente, um momento branco - uma espécie de torpor - que não é um momento de esquecimento. Isso me aterroriza.
_________________________________
Uma estranha nova acuidade, vendo (na rua) a feiúra das pessoas ou sua beleza.
3 de novembro
Por um lado, ela quer tudo, luto total, seu absoluto (mas então, não é ela, sou eu que a estou investindo com a demanda para tal coisa). Por outro lado (sendo verdadeiramente ela mesma), ela me oferece luminosidade, vida, como se ela ainda estivesse dizendo: "Mas vá em frente, saia, divirta-se..."
4 de novembro
A idéia, a sensação que tive nesta manhã, da oferta de luminosidade no luto, Eric me conta hoje que acabou de de reler isto em Proust ( a oferta da avó para o narrador).
_______________________________
Por volta das 6 da tarde o apartamento está aquecido, limpo, bem iluminado, agradável. Eu eu o torno assim, energeticamente, devotadamente (tendo prazer amargamente): de agora em diante e para sempre serei minha própria mãe.
5 de novembro
Tarde triste. Compras. Comprei (frivolidade) bolo para chá na padaria.
Atendendo um freguês à minha frente, a jovem atrás do balcão diz "eis aqui". A expressão que eu usava quando trazia alguma coisa à mamãe, quando estava cuidando dela.Uma vez, encaminhando para o final, meio-consciente, ela repetia, fracamente, "eis aqui"("estou aqui", uma palavra que costumávamos usar um para o outro em todas nossas vidas).
A palavra falada pela jovem na padaria me trouxe lágrimas aos meus olhos. Eu continuei a chorar por um bom tempo de volta ao silencioso apartamento.
Isso é como eu compreendo meu luto. Não diretamente na solidão, empiricamente, etc.;Parece-me que eu tenho uma espécie de conforto, de controle que faz as pessoas pensarem que estou sofrendo menos do que elas teriam imaginado. Mas isso me chega quando nosso amor de um para o outro é rompido mais uma vez.O ponto mais doloroso no mais abstrato momento...
9 de novembro
- Menos e menos para escrever, dizer, exceto isto (que eu não posso contar a ninguém).
10 de novembro
As pessoas lhe falam para manter sua "coragem". Mas o tempo para coragem foi quando ela estava doente, quando eu tomei conta dela e a vi sofrendo, sua tristeza, e quando eu tinha de segurar minhas lágrimas. Constantemente se tinha de tomar decisão, pôr uma máscara, e isso era coragem.
_ Agora, coragem significa que viverá e isso é tudo demais disso.
11 de novembro
Solidão= não ter ninguém em casa para quem se possa dizer, voltarei em tempo específico, ou a quem você possa ligar para dizer (ou a quem você possa simplesmente dizer), "eis aqui", estou em casa agora.
16 de novembro
Agora, em todo lugar, na rua, no café, eu vejo cada indivíduo sob o aspecto de inelutavelmente ter de morrer, o que é exatamente o que significa ser mortal. _ E, não menos obviamente, eu os vejo não sabendo disso assim.
17 de novembro
Luto: um país cruel onde eu não tenho mais medo.
26 de novembro
O que eu acho aterrador é o caráter descontínuo do luto.
28 de novembro
Para quem eu posso colocar essa pergunta (com alguma esperança de uma resposta)?
Ser capaz de viver sem alguém que você amava significa que você a amou menos que você pensava...?
30 de novembro
Não diga "luto". É psicanalítico demais. Não estou de luto. Eu estou sofrendo.
7 de dezembro
As palavras (simples) da Morte:
_ "É impossível!"
_ Por quê, por quê?"
_ "Para sempre"
etc.
8 de dezembro
Luto: não uma esmagadora opressão, uma interferência (que suporia um "reenchimento") mas uma disponibilidade dolorosa: Eu estou vigilante, expectante, esperando o começo de um "sentido da vida".
8 de janeiro, 1978
Todo mundo é "extremamente agradável" - e mesmo assim me sinto completamente sozinho ("Abandonitis")
12 de fevereiro
Neve, uma verdadeira tempestade de neve sobre Paris; estranho. Eu digo a mim mesmo, e sofro por isto: ela nunca mais estará aqui para ver isso, ou para eu descrevê-lo para ela.
18 de fevereiro
Eu tinha pensado que a morte de mamãe me faria alguém mais "forte", ter acesso conforme eu pudesse para a indiferença do mundo. Mas tem sido bem ao contrário: eu estou até mais frágil (sem surpresa: por nenhuma razão, um estado de abandono).
6 de março
Meu sobretudo é tão sombrio que eu sei que mamãe jamais toleraria o cachecol preto ou cinza que eu sempre uso com ele, e eu continuo a ouvir sua voz dizendo-me para usar um pouco de cor.
Pela primeira vez, então, eu decido usar um cachecol colorido (xadrez escocês).
3 de abril
Desespero: a palavra é teatral demais, uma parte da língua.
28 de maio
A verdade sobre o luto é muito simples: agora que mamãe está morta, eu me deparo com a morte (nada me separa mais disso, exceto o tempo).
7 de julho
Mostra de "Os Últimos Anos de Cézanne"
Mamãe: como Cézanne (as últimas aquarelas).
Cézanne é azul.
14 de junho
(Oito meses após): segundo luto.
15 de junho
Tudo começou de novo imediatamente: chegada dos manuscritos, pedidos, histórias das pessoas, cada pessoa impiedosamente pressionando antecipação de sua própria demanda (por amor, por gratidão): não demorou que ela partisse para que o mundo me atordoasse com sua continuidade.
17 de junho
primeiro luto
falsa liberdade
segundo luto
desolada liberdade
mortalmente, sem
valiosa ocupação
18 de julho
Cada um de nós tem seu próprio ritmo de sofrimento.
29 de julho
Biblioteca Nacional
Carta (de Proust) para Georges de Lauris, cuja mãe acabou de morrer (1907)
"Agora há uma coisa que posso falar: você apreciará certos prazeres que você não fantasiaria agora. Quando você ainda tinha sua mãe, frequentemente pensava nos dias quando não mais a teria. Agora você pensará frequente nos dias passados quando a tinha. Quando você se acostumar com essa horrível coisa que eles estarão para sempre na distância do passado, então você gentilmente sentirá seu renascer, voltando para retomar seu lugar, seu completo lugar, ao seu lado. No presente momento, isto não é possível. Deixe-se estar inerte, espere até o incompreensível poder...que te quebrou restaure-o um pouco, eu digo um pouco, pois que daqui por diante você conservará alguma coisa quebrada sobre você. Diga isso a você, também, pois é uma espécie de prazer de que você nunca amará menos, que você nunca será consolado, que você constantemente lembrará mais e mais".
Marcadores:
New Yorker,
Roland Barthes,
Transcriação
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Avec Ardeur - Marianne Moore
Avec Ardeur
Caro Ezra, que sabe o que é cadência.
Tenho pensado - bem, cogitado.
Faça rebuliço
e seja tedioso
Estou aborrecido?
Sim, estou. Evito
"adorar"
e "entediar".
estou, eu
digo, pela
palavra
(tédio) entediada.
Eu recuso
usar
"divino"
para dizer
alguma coisa agradável
"tremenda cor"
para algum horror
Ainda que chata
eu mesma, diria que
"Atlas"
(vidro prensado)
parece melhor
em veleiro
eu recuso
o uso
"cativar"
"enlouquecer"
mesmo "medo-
nho empenho
(embora justificado)
ou "frívo-
lo tolo
(embora adequado).
Escapei?
me armadilhei
por essa
doença da palavra.
Sem pausas,
as frases
carentes de
força lírica, diferente
de Ático
Alcaico
ou esdrúxula
chita - xiita
Isso não é verso
claro.
Tenho certeza.
Nada mundano é divino
Nada divino é mundano
Marcadores:
Marianne Moore,
Transcriação
Esconde - Esconde, de Ogden Nash
Esconde-Esconde
A vida de meia idade é alegre, e eu adoro levá-la,
Mas chega um dia em que seus olhos estão bem mas o braço,
Não é longo o suficiente para segurar a lista telefônica que você quer ler,
E seus amigos ficam jocosos, então, você vai ao oculista,
E de todos os seus amigos ele é o jocolista,
Então, sobre sua facécia vamos de leve,
Apenas notando que ele tem esperado por você desde que disse:
"Boa noite" ao relógio do avô dele como se fosse ele
E você olha para o cartaz que diz:
"vodevria guardabe", e você
diz: "Bem, por que não vodevria guardabe?"
e ele diz: "um par de oculos não resolve, precisa de dois",
um para ler "Perry Mason" de Erle Stanley Gadner e "Endymon" de Keats,
E o outro, para passear sem dizer "alô" a estranhos algonquianos
E aí você passa seu tempo tirando seus óculos de ver, e pondo
os de ler, e lembra que os da leitura ficaram no andar superior
ou no carro, claro, não consegue encontrar seus óculos de ver
pois sem eles não pode saber onde estão.
Basta de azar que testa paciência de Jó.
Prefiro esquecer ambos os óculos e passar meus anos decadentes
saudando mulheres estranhas e relógios de avô.
de Comic and Curious Verse
de Comic and Curious Verse
How Beastly the Bourgeois is - D. H. Lawrence
Quão Bestial é o Burguês - D. H. Lawrence
Quão bestial é o burguês
Especialmente o macho bull-terrier
Apresentável, eminentemente apresentável
Posso fazer dele um presente pra você?
Ele não é galhardo? galante? uma espécie saudável?
Não parece o inglês de cristalino frescor, por fora?
Não é a própria imagem de Deus? Trotando suas 30 milhas por dia
Farejando perdizes, ou no rastro da bolinha de borracha?
O que você acha de ser assim, de tal abundância?
Espere aí!
Deixe-o experimentar uma emoção nova, de cara com a carência do outro
Deixe-o voltar à casa com um pouco de dificuldade moral,
Deixe a vida encará-lo com novo requerimento de compreensão
E então observe-o, cachorro molhado, escorrido
Ruge - rugeando, fica parvo até bufão.
Olhe pra ele pompa a prumo peito à frente
Escudo indigente à prova de vida.
Quão bestial é o burguês
Especialmente o bull-terrier.
Bem tratado, como cogumelo,
Pêlo de mel aprumado - notável -
Como um fungo vive das so(m)bras do passado
Sugando a seiva de galhos mortos de vida maior que a sua
E ainda assim, ele está gasto - tem estado aí demais.
Toque-o e verá - já se foi por dentro
O velho cogumelo de vermes
Retidão de casca sob pelica oca.
Sentimentos em revolta bichada
- Quão vil - você há de convir
Quão bestial é esse tal do burguês.
Paragens de parasitas, nessa Inglaterra abatida
- Que pena! Não dá pra enterrá-los?
Como erva daninha - búúú - de volta
In terra! - seu burgo (t'expurgo),
Bull-terrier.
- de Comic and Curious Verse
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Rain - Jack Gilbert
CHUVA
Subitamente esta falta
Esta chuva.
Os azuis ficaram cinzentos
E os marrons ficaram cinzentos
E o amarelo
Um terrível âmbar (não uma outonalidade *NT)
Nas ruas frias
Seu corpo quente
Em qualquer cômodo
Seu corpo quente
Sua ausência
As pessoas que aí estão sempre,
Não você.
Eu tenho tido calma com as árvores
Tempo demais com as montanhas
A alegria tem sido um hábito.
De repente, agora,
Esta chuva.
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The Forgotten Dialect of the Heart - Jack Gilbert
O Dialeto Esquecido do Coração
Impressionante é que essa linguagem possa quase significar,
e ameaçador que ela não o faça de fato. "Amor", dizemos, "Deus", dizemos, "Roma e Mickiko", escrevemos, e as palavras extraem tudo errado.
Dizemos "pão", e isso significa de acordo com cada nação.
O francês não tem palavra para "lar", e não tem palavra para
prazer estrito. (Só em português pode-se mencionar a "saudade" -NT*)
Um povo no norte da Índia está morrendo porque sua língua antiga não tem palavras para carinho. Sonho com vocabulários perdidos
que possam expressar algo do qual não mais possam.
Talvez os textos etruscos finalmente explicariam porque
os casais em suas tumbas estão sorrindo. E talvez
não quando as milhares das misteriosas tabuinhas sumerianas
foram traduzidas, elas parecem registros de negócios. Mas e se
forem poemas ou salmos? Minha satisfação é a mesma com
doze bodes etíopes ficam em pé silenciosos
na luz da manhã.
Ó Senhor, vossa arte pavimenta de sal e lingotes de cobre,
Tão grandioso quanto cevada madura
graciosa sob o labor do vento.
Os seios dela são seis brancos bois carregadoso de raios
de algodão de longa fibra egípcia.
Meu amor é uma centena de ânforas de mel.
Navios carregados de Tuya, são o que meu corpo quer dizer
para o seu corpo. Girafas são este desejo no escuro.
Talvez a espiral do roteiro minoano não seja linguagem, mas
um mapa. Do que nós mais sentimos, não tem nome mas âmbar,
arqueiros, canela, cavalos e pássaros.
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
A Sabotagem Amorosa - de Amélie Nothomb
"Au grand galop de mon cheval, je paradais parmi les ventilateurs."
(Assim começa o livro Le Sabotage Amoureux de Amélie Nothomb, que traduzi com muito gosto, em 2007)
Em pomposo galope do meu cavalo, eu desfilava no meio dos ventiladores.
Eu tinha sete anos. Nada era mais agradável que ter ar demais no cérebro. Mais a velocidade assobiava, mais o oxigênio entrava e esvaziava a mobília.
Meu corcel chegou à praça do Grande Ventilador, chamada mais vulgarmente praça Tien An Men. Ele dobra à direita, bulevar da Feiúra Habitável.
Eu segurava as rédeas numa mão. A outra, se entregava a uma exegese de minha solidão interior, alternando a garupa do cavalo e o céu de Pequim.
A elegância de minha postura sufocava os passantes, os escarros, os asnos e os ventiladores.
Não tinha necessidade de ajustar minha montaria. A China a havia criado à minha imagem: era uma embalagem das grandes andaduras. Ela carburava ao fervor íntimo e à admiração das multidões.
Desde o primeiro dia, eu compreendera o axioma: na Cidade dos Ventiladores, tudo que não era esplêndido era medonho.
O que se reitera que quase tudo era medonho.
Corolário imediato: a beleza do mundo era eu.
Não que estes sete anos de pele, de carne, de cabelos e de ossatura tivessem sido algo a eclipsar as criaturas de sonho dos jardins de Alá e do gueto da comunidade internacional.
A beleza do mundo era minha pavonada oferta-do-dia, era a rapidez do meu cavalo, era meu crânio desdobrado como um véu aos sopros dos ventiladores.
Pequim cheirava a vômito de criança.
Bulevar da Feiúra Habitável, havia apenas o barulho do galope para encobrir as raspagens de garganta, a interdição de se comunicar com os chineses e o vazio horroroso dos olhares.
À chegada no recinto, o corcel diminuiu o passo para permitir me identificar aos guardas. Não lhes pareci mais suspeita que de ordinário.
Eu penetrei no seio do gueto de San Li Tun, onde eu vivia desde a invenção da escrita, quer dizer, desde cerca de dois anos, por volta do neolítico, sob o regime do Bando dos Quatro.
"O mundo é tudo o que acontece", escreve Wittgenstein, em sua prosa admirável.
Em 1974, Pequim não acontecia: não vejo como poderia melhor exprimir a situação.
Wittgenstein não era a leitura privilegiada dos meus sete anos. Mas meus olhos tinham precedido o silogismo acima para chegar à conclusão de que Pequim não tinha grande coisa a ver com o mundo.
Eu me contentava: tinha um cavalo e uma aerofagia tentacular no cérebro.
Tinha tudo. Eu era uma interminável epopéia.
Sentia-me ter parentesco apenas com a Grande Muralha: única construção humana a ser visível da Lua, pelo menos ela respeitava minha escala. Não restringia o olhar, ela o arrastava em direção ao infinito.
Cada manhã, uma escrava vinha me pentear.
Ela não sabia que era minha escrava. Se considerava chinesa. Na verdade, ela não tinha nacionalidade, pois que era minha escrava.
Antes de Pequim, eu vivia no Japão, onde se encontravam os melhores escravos. Na China, a qualidade dos escravos deixava a desejar.
No Japão, quando eu tinha quatro anos, possuía uma escrava de minha devoção pessoal. Ela se prostrava frequentemente a meus pés. E ficava bem.
A escrava pequinesa não conhecia esses costumes. De manhã, ela começava por pentear meus longos cabelos: engalfinhava-se neles como uma bruta. Eu uivava de dor e dirigia-lhe várias chicotadas mentais. Em seguida, ela me tricotava uma ou duas mechas admiráveis, com essa arte ancestral da trança à qual a Revolução cultural não tinha arrancado sequer um pêlo. Eu preferia que me fizesse uma só trança larga: parecia-me que isso convinha melhor a uma pessoa da minha classe.
Esta chinesa chamava-se Trê, nome que eu achava inadmissível de cara. Eu lhe fiz saber que ela passaria a se chamar pelo nome da minha escrava japonesa, que era charmoso. Me olhou surpreendida e continuou a se chamar Tre. Desse dia, eu compreendi que havia algo de podre na políica desse país.
Certos países funcionam como drogas. É o caso da China, que tem um impressionante poder de tornar pretensiosos todos que aí foram - e mesmo aqueles que dela falam.
A pretensão faz escrever. De onde um número extraordinário de livros sobre a China. A imagem do país que os inspirou, essas obras que são as melhores (Leys, Segalen, Claudel) ou o pior.
a continuar...
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domingo, 27 de novembro de 2011
THE CIRCUS WATCHER , de Mary Jo Bang, poema publicado na New Yorker, July 4, 2011
O Observador de Circo
Eu visto vermelho para combinar com o ar
que vem por sobre a cerca
e enche o jarro no qual eu guardo o dia.
Eu digo todo cachorro parece um com o outro
Mas não é verdade. Não inteiramente.
A diferença é escorregadia. Eu digo,
Apenas olhe para minha cabeça, como ela dá tilts ao examinar
essas folhas extra-largas. Elas são grandes
e azuis, o melhor para serem vistas
pelo meu olho de alfinete de almofada, tão brilhante na luz.
Estou triste. Estou feliz. Me mantenho ocupada.
Eu conto as oito pernas da lâmpada rítmica
na mesa. Aracnídia e tal.
O livro que deixo aberto, o vento sopra, ele fecha.
Final de abril faço meu horário: junho
para julho, julho para agosto. Começo a perceber
o circo será de lugares, mentes, pessoas,
prazer. A bateria de tudo isso.
Eu pratico, quando não estou segura de mim mesma,
essa repetição: sei, sei, sei, soube,
Acho que o caos me fascina, eu sei,
Sou parte disso,
uma das figuras numa jaula.
Eu visto vermelho para combinar com o ar
que vem por sobre a cerca
e enche o jarro no qual eu guardo o dia.
Eu digo todo cachorro parece um com o outro
Mas não é verdade. Não inteiramente.
A diferença é escorregadia. Eu digo,
Apenas olhe para minha cabeça, como ela dá tilts ao examinar
essas folhas extra-largas. Elas são grandes
e azuis, o melhor para serem vistas
pelo meu olho de alfinete de almofada, tão brilhante na luz.
Estou triste. Estou feliz. Me mantenho ocupada.
Eu conto as oito pernas da lâmpada rítmica
na mesa. Aracnídia e tal.
O livro que deixo aberto, o vento sopra, ele fecha.
Final de abril faço meu horário: junho
para julho, julho para agosto. Começo a perceber
o circo será de lugares, mentes, pessoas,
prazer. A bateria de tudo isso.
Eu pratico, quando não estou segura de mim mesma,
essa repetição: sei, sei, sei, soube,
Acho que o caos me fascina, eu sei,
Sou parte disso,
uma das figuras numa jaula.
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Tradução de Before Air-Conditionning, Frederick Seidel, New Yorker, July 2,2011
Tradução de Yara.
Antes do Ar Condicionado
A doçura do frescor da brisa!
O vento embarafusca as árvores.
O céu está negro. As árvores arvoreiam o verde.
O homem aparando o enorme gramado antes da chuva que faz o bem limpo.
É o cheiro da lavanderia em movimento
E o cheiro do mar, revigor iodado,
Novecentas milhas de continente,
do oceano, é o que alguém pequeno que tem febre se sinta quase melhor.
É exatamente o que uma pessoa doente precisa comer.
Talvez isso esteja vindo de Illinois no calor.
Cuidado com os corvos, porém.
Com eles em volta, croc-croc, vai nevar.
Acho que ainda estou dormindo. Espero que eu tenha rezado antes de morrer.
Ouço o leiteiro fixando o clinking nas garrafa lá fora.
Antes do Ar Condicionado
A doçura do frescor da brisa!
O vento embarafusca as árvores.
O céu está negro. As árvores arvoreiam o verde.
O homem aparando o enorme gramado antes da chuva que faz o bem limpo.
É o cheiro da lavanderia em movimento
E o cheiro do mar, revigor iodado,
Novecentas milhas de continente,
do oceano, é o que alguém pequeno que tem febre se sinta quase melhor.
É exatamente o que uma pessoa doente precisa comer.
Talvez isso esteja vindo de Illinois no calor.
Cuidado com os corvos, porém.
Com eles em volta, croc-croc, vai nevar.
Acho que ainda estou dormindo. Espero que eu tenha rezado antes de morrer.
Ouço o leiteiro fixando o clinking nas garrafa lá fora.
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COUNTRY SONGS - Dora Malech, New yorker ,july, 2011
Canções Country
Meu homem faz seu choro no cavalo rápido.
Eu faço melhor dançando com estranhos.
O grito da criança atravessa o momento
de silenciosa prece, diz "Este é um país livre",
diz "Você e qual exército". "Você não pode
trespassar sobre o rio, você está simplesmente errado
quando pisa fora daqui em direção ao campo. Todas as falsas esperanças traduzem apenas começos.
Não havia nenhuma graça de Deus. Eu fui. Não era segredo que o sol e
a lua dormiam em camas separadas.
Ele dá o aço, rouba alguma vez e
chama isso de "emprestado", hematomas, chama isso de "alguma coisa azul". Um pássaro vermelho, um pássaro amarelo,
não na mesma moldura da hora mas perto
o bastante pois sua cor juntas para fazer
uma espécie de som ressoante. Eu pensei que ele trouxesse
a água da fonte mas ele ainda está trazendo. Eu deleguei. Meu trabalho é esperar.
É beber água. Estou aprendendo a dizer
"Este é um país livre: este exército, mas não eu.
Meu homem faz seu choro no cavalo rápido.
Eu faço melhor dançando com estranhos.
O grito da criança atravessa o momento
de silenciosa prece, diz "Este é um país livre",
diz "Você e qual exército". "Você não pode
trespassar sobre o rio, você está simplesmente errado
quando pisa fora daqui em direção ao campo. Todas as falsas esperanças traduzem apenas começos.
Não havia nenhuma graça de Deus. Eu fui. Não era segredo que o sol e
a lua dormiam em camas separadas.
Ele dá o aço, rouba alguma vez e
chama isso de "emprestado", hematomas, chama isso de "alguma coisa azul". Um pássaro vermelho, um pássaro amarelo,
não na mesma moldura da hora mas perto
o bastante pois sua cor juntas para fazer
uma espécie de som ressoante. Eu pensei que ele trouxesse
a água da fonte mas ele ainda está trazendo. Eu deleguei. Meu trabalho é esperar.
É beber água. Estou aprendendo a dizer
"Este é um país livre: este exército, mas não eu.
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ON the Nature of Understanding, Kay Ryan - da New Yorker.,
ON THE NATURE OF UNDERSTANDING
Da Natureza da Compreensão
Digamos que você esperava
domesticar algo
selvagem e ficou
calmo e pouco movimento
dia após dia. Ou até
não o domestique mas
ache um caminho do meio.
As coisas se acomodaram ao longo juntas.
Você fez progresso,
ao compreender
que seria um extenso processo,
sentindo as mudanças
em seu cabelo e
unhas. Então, é
estranho quando isso ataca: você pensava
que tinha um acordo.
Da Natureza da Compreensão
Digamos que você esperava
domesticar algo
selvagem e ficou
calmo e pouco movimento
dia após dia. Ou até
não o domestique mas
ache um caminho do meio.
As coisas se acomodaram ao longo juntas.
Você fez progresso,
ao compreender
que seria um extenso processo,
sentindo as mudanças
em seu cabelo e
unhas. Então, é
estranho quando isso ataca: você pensava
que tinha um acordo.
- do imaginário de novembro
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Reconstruction - de Steven Dunn. New Yorker, July 2&18/ 2011
Reconstrução
Os vulcões uma vez tão ativos,
Estão em grande parte quietos agora, dizem meus amigos
De jeito nenhum eles nos contam o que sabem.
E os dinossauros, osso por osso,
podem ser reconstruídos,
mas suas histórias, também, permanecem grandemente
incontadas, seus esqueletos, a maioria cheios,
ele diz - como caixas-pretas pré-históricas _ alto som tom agudo,
gritos indecifráveis.
Todas as teorias estão erradas meu amigo insiste,
famosas por serem mais interessantes
do que certas. Ele diz que os vulcões
ajudaram os dinossauros a se darem bem
nas terras baixas. Numa toalha de mesa
ele recria `a tinta a cena _ uma topografia
de pequenas perturbações vulcânicas
que manteve o Tyrannosaurus rex
e outras inconveniências em cheque.
E então havia um ponto de virada,
ele diz, questão de vegetação
e escassez e ganância. Uma velha história
ele chama isso, como se simplesmente afirmando um fato -
os dinossauros, quando se trata de comida,
nunca sabiam o quanto era demais,
e dado o tamanho de seus cérebros
continuavam a fazer muito de quase esquecível
de coisas estúpidas. Mas ele ouviu a si mesmo,
e aparentemente divertido, é rápido
a apontar que perdão
não era sequer um conceito ainda, ou palavra,
ainda eons distantes de
uma certa sinuosidade e o gosto por nós.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
UMA HISTORIA NEGRA DE FALANTES DE LINGUA INGLESA
POEMA DE DALJIT NAGRA - THE NEW YORKER, JULY 25,2011
Umas invocações do rei no Teatro Global
Revira-me desta minha posição atual para um tempo em que bravata de moleque e fogo de artilharia pesada
e pilhagem eram suficientes para se conseguir um assento real.
Que coisa é essa de Arte Elizabetana e uma nação
de jardins-muros em local superior a outros
domesticaria os 4 cantos do mundo... Isso
para que o domínio do Império pareça inconcebível.
Entre o nascimento do fogo e o renascimento do Globo
as visões de Albion levam para um poder inglês
de ventos tropicais*( soprando em direção ao Equador, norte-leste no N Hemisfério e sul-leste no S Hemisfério) -e- Golfo-Canal-fluxo d'água contínuo
todos - os navios de guerra conquistadores que levantaram teatros
para discursos sobre Hottentotes e craniologia,
enquanto o Eden desfilava em Kew.
Entre Mayflower e Windrush
(com cada necessário assassinato) as celebradas
fixações dos arredores de gosto imperial onde selvas
foram conquistadas para que a luz da aprendizagem fosse espalhada para ajudar soluçantes suttees
a desistirem do fantasma da flamejante pira de um marido.
II
Tanto para ontem, mas o tempo honroso de hoje
televisionou batidas de metal repetem a bandeira de um livro queimando e o May Day dos Moicanos
Churchill e todo aquele choque e espanto
que me traz de volta para o Globo do Wanamaker.
Um atavismo americano sobreposto ao rei do Canhão! Eu assisto o ator, como rei, do elenco do dominador Robeson.
A multidão, também, parece uma mistura dos pactos e seitas do
nosso declínio e circulação.
Meus ancestrais fizeram seu papel para o quid pro quo do Império
ao assistirem `a preponderância do governo e a desunião da espécie.
Tais relações me produzem para este palco?
Especialmente com Macauly em mente, quem
reclamou o passe do cetro imperial iria iluminar
o imperecível império de nossas artes...
Então o vermelho do mapa de Macauly corre no meu sangue?
Sou eu uma nobre nuca que espera que uma orgulhosa academia possa canonizar seus poemas para a fé deles em alusões canônicas?
É falsa minha voz sobre essas tão frequentes bestas?
Bem, se a minha voz soa vexatória, o que posso senão rezar para que ela reine Bolshie atraves da manipulação de marionetes e hipocrisia cheia de fúria muito eufórica!
III
O pico do maximo poder do Golfo incitou bravo novo verso
modelado no passado, quando as fricções do tempo cortejavam as corrupções de Shakespeare para o domínio do tema espetacular da
Língua. Talvez
o Globo deva ser minha musa! Fico feliz cavocando
para o meu bom jardim inglês exercer força outra vez.
Meu jardim, apenas meu estado mental de meu jardim, onde é fácil me alinhar a ele com um "viracasaco".
T> E. Lawrence e um seminú faquir e sempre na parte mais barata* (=do teatro Elizabetano). Talvez para ajudar a sucessão desta língua do mundo, pois que o poeta semeando as raízes,
para que o debate chegando de maneira limpa certamente nos daria uma distância maior
do que este rei no Globo, cuja cabeca parece chafuradar na lama
com idade de ouro de bumph
cujo sofrimento acaba nele em antecipada excitação nas estrelas.
V
Eu aplaudo e vagueio tranquilo em direção a Westminster,
ainda assim suavemente esta noite as águas do erro Britannia
com flotilhas de chá e algodão de ouro branco e a doçura-e-luz
tingiram de sangue e finalmente o rosto vermelho do Suez.
E como rapidamente a maré remove da cena o instrumento * (inflável de papel) clamando as tropas de campo ao largo corpos de soldados escarlates e o choro do mártir: Todo homem morre em seu posto!
Até que o que há pela frente são amantes felizes que encaram a partir do Olho de Londres em multinacionais deitados ao longo do sanitizado Thames.
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Daljit Nagra,
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domingo, 18 de julho de 2010
Uma Arte / Uma tradução (One Art by Elizabeth Bishop -1927-1979- complete poems)
Uma Arte
A arte de perder não é difícil dominar;
tantas coisas parecem preenchidas com o intento
de estarem perdidas que sua perda não configura desastre.
Perca algo todos os dias. Aceite a perturbação
da perda das chaves da porta, da hora mal gasta.
A arte de perder não é difícil dominar.
Então pratique perder por mais tempo, perder mais rápido:
lugares, e nomes e aonde você tencionava
viajar. Nada disso causará desastre.
Eu perdi o relógio da minha mãe. E olhe! minha última, ou
a penúltima, das três amadas casas se foram.
A arte de perder não é difícil dominar.
Perdi duas cidades, adoráveis. E, mais vastos,
alguns recantos possuí, dois rios, um continente.
Sinto falta deles, mas não foi um desastre.
- Até perder você (a voz zombeteira, um gesto
que eu amo) Por pouco não menti. É evidente
a arte de perder não é difícil demais de dominar
ainda que possa se parecer como (escreva isto!) como um desastre.
A arte de perder não é difícil dominar;
tantas coisas parecem preenchidas com o intento
de estarem perdidas que sua perda não configura desastre.
Perca algo todos os dias. Aceite a perturbação
da perda das chaves da porta, da hora mal gasta.
A arte de perder não é difícil dominar.
Então pratique perder por mais tempo, perder mais rápido:
lugares, e nomes e aonde você tencionava
viajar. Nada disso causará desastre.
Eu perdi o relógio da minha mãe. E olhe! minha última, ou
a penúltima, das três amadas casas se foram.
A arte de perder não é difícil dominar.
Perdi duas cidades, adoráveis. E, mais vastos,
alguns recantos possuí, dois rios, um continente.
Sinto falta deles, mas não foi um desastre.
- Até perder você (a voz zombeteira, um gesto
que eu amo) Por pouco não menti. É evidente
a arte de perder não é difícil demais de dominar
ainda que possa se parecer como (escreva isto!) como um desastre.
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sábado, 17 de julho de 2010
Figura de Dança (Ezra Pound -Selected Poemas)
Figura de Dança
pelo casamento de Galileu em cana
Olhos escuros,
Ó mulher dos meus sonhos,
Com sandálias de marfim
Não há ninguém como tu entre as dançarinas
Ninguém com pés espertos.
Não te tenho encontrado nas tendas,
Na escuridão violada
Não te tenho encontrado na fonte
Com mulheres com cântaros.
Teus braços jovens arrebentam a casca
Teu rosto rio de luzes revela
Teus ombros brancos de amêndoas
Novas amêndoas saqueadas da casca.
Eles não te guardam com eunucos
Nem com trancas de cobre. Pedra azul - verde prata no lugar de teu repouso,
Um manto marrom, malha de fios de ouro te recolhe ao redor de ti
Ó nathat Itanaia, "raiz orla de rio".
Como riacho entre juncos tuas mãos sobre mim
Teus dedos foscos fachos de luz
Tua vulva branca, grãos de cristal
Teu som sobre ti!
Não há ninguém como tu entre as dançarinas
Ninguém com pés espertos.
pelo casamento de Galileu em cana
Olhos escuros,
Ó mulher dos meus sonhos,
Com sandálias de marfim
Não há ninguém como tu entre as dançarinas
Ninguém com pés espertos.
Não te tenho encontrado nas tendas,
Na escuridão violada
Não te tenho encontrado na fonte
Com mulheres com cântaros.
Teus braços jovens arrebentam a casca
Teu rosto rio de luzes revela
Teus ombros brancos de amêndoas
Novas amêndoas saqueadas da casca.
Eles não te guardam com eunucos
Nem com trancas de cobre. Pedra azul - verde prata no lugar de teu repouso,
Um manto marrom, malha de fios de ouro te recolhe ao redor de ti
Ó nathat Itanaia, "raiz orla de rio".
Como riacho entre juncos tuas mãos sobre mim
Teus dedos foscos fachos de luz
Tua vulva branca, grãos de cristal
Teu som sobre ti!
Não há ninguém como tu entre as dançarinas
Ninguém com pés espertos.
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toda ignorância escorrega para o conhecimento - e.e.cummings /Selected Poems 1923/58
toda ignorância escorrega para o conhecimento
e se arrasta de volta para a ignorância:
mas o inverno não é eterno, mesmo a neve
derrete; e se a primavera estraga a brincadeira - e aí?
toda história é um esporte de inverno ou 3:
mas era 5, ainda insisto nisso
a história é pequena demais mesmo para mim
pra mim e você, excessivamente pequena.
queda (guincho coletivo do mito) no teu túmulo,
apenas para exaurir a escala da agudeza:
para cada mara e maria dito e benedito
- amanhã é o nosso perpétuo endereço
e lá será difícil nos achar (se acharem,
nos deslocaremos pra mais longe:
Agora.
e se arrasta de volta para a ignorância:
mas o inverno não é eterno, mesmo a neve
derrete; e se a primavera estraga a brincadeira - e aí?
toda história é um esporte de inverno ou 3:
mas era 5, ainda insisto nisso
a história é pequena demais mesmo para mim
pra mim e você, excessivamente pequena.
queda (guincho coletivo do mito) no teu túmulo,
apenas para exaurir a escala da agudeza:
para cada mara e maria dito e benedito
- amanhã é o nosso perpétuo endereço
e lá será difícil nos achar (se acharem,
nos deslocaremos pra mais longe:
Agora.
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domingo, 11 de julho de 2010
Histeria (from Collected Poems 1909-1962 -T.S.Eliot)
Histeria
Enquanto ela ria eu ficava atento ao me envolver na sua risada e ser parte dela, até que seus dentes eram só estrelas acidentais com talento para fieira cortante. Eu arrastado por curtos ofegos, inalado a cada retomada, perdido finalmente nas cavernas escuras de sua garganta, ferido pela ondulação de músculos invisíveis.
Um garçom idoso com mãos trêmulas, apressado, esparramava uma toalha
xadrez rosa e branca sobre a mesa de ferro verde-enferrujado, dizendo:
"Se Dama e Cavalheiro desejarem tomar vosso chá no jardim..."
Eu decidi que se o tremor dos seios dela pudesse ser parado, alguns dos fragmentos da tarde poderiam ser recolhidos, e eu concentrei minha atenção com sutileza para este fim.
Enquanto ela ria eu ficava atento ao me envolver na sua risada e ser parte dela, até que seus dentes eram só estrelas acidentais com talento para fieira cortante. Eu arrastado por curtos ofegos, inalado a cada retomada, perdido finalmente nas cavernas escuras de sua garganta, ferido pela ondulação de músculos invisíveis.
Um garçom idoso com mãos trêmulas, apressado, esparramava uma toalha
xadrez rosa e branca sobre a mesa de ferro verde-enferrujado, dizendo:
"Se Dama e Cavalheiro desejarem tomar vosso chá no jardim..."
Eu decidi que se o tremor dos seios dela pudesse ser parado, alguns dos fragmentos da tarde poderiam ser recolhidos, e eu concentrei minha atenção com sutileza para este fim.
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